Porque não uso Inteligência Artificial nos meus textos
O processo criativo como fonte de prazer, descoberta e significado
Pensar porque não gosto de usar Inteligência Artificial na minha escrita começa com a história de como o travessão – sim, esse sinalzinho ardiloso que permite enfiar textos um dentro do outro, um pouco como os sonhos naquele filme A Origem – atravessou minha vida.
Em todo o planeta eu talvez seja a pessoa que mais gosta de travessões. Posso provar. Se você usa Windows e possui um teclado número, aperte Alt + 0150. Adivinha o que aparece? O fato de eu ter pesquisado, muito antes do “Modo IA” do Google, como criar um travessão usando atalhos do teclado me credencia como devoto desse tão amado e odiado recurso linguístico.
Só que agora a IA aprendeu, como poucas pessoas até hoje aprenderam, a usar travessão. E o problema é que ela está viciada neles – mas quem sou eu pra apontar o dedo, não é?
Prefiro não bombardear meus textos com a metralhadora de parágrafos das Inteligências Artificiais por uma única razão: ninguém vai me roubar a chance de escrever travessões – nem humanos, nem máquinas. Tenho um prazer específico em digitar Alt + 0150 e assistir ao efêmero espetáculo que é ver um tracinho de tamanho médio brotando na tela.
O processo importa mais que o resultado. A gostosura importa mais que a produtividade. Quem cria o faz primeiro para si, depois para o mundo.
Eu sei que agora meus textos podem ser confundidos com IA porque uso muito travessão e ela também. Não ligo pra isso. A questão é perceber que a IA rouba mais do que toneladas de propriedade intelectual; ela também rouba um dos pilares da vida humana – a tesuda, exigente e neuroprotetora atividade criativa.
Obs. 1: aqui vai uma citação do escritor Ted Chiang sobre IA que também expressa algo do que penso a respeito.
Sobre não usar IA para escrever:
Por dois motivos. O primeiro é que, bem, às vezes me descrevo como um ‘vegano de LLM’ [sigla em inglês para grandes modelos de linguagem]. Não uso LLMs, como o ChatGPT, por princípio, devido ao enorme custo ambiental, da exploração da mão de obra e porque esses modelos são construídos com base no roubo de propriedade intelectual. Usar o ChatGPT me faria sentir cúmplice de um crime, da mesma forma que os muitos veganos se sentem ao comer carne.
Mas, se, hipoteticamente, houvesse um LLM eficiente energeticamente, socialmente ético a ponto de os trabalhadores serem bem tratados e se esses LLMs fossem treinados apenas com trabalhos em domínio público, ainda assim eu não usaria. Escrever é uma forma de entender o que estou pensando, e não quero usar uma ferramenta digital para fazer isso por mim. Não vejo como ela poderia me ajudar, porque se quero entender os meus pensamentos, preciso descobrir o que estou pensando.
Obs. 2: não quero ser hipócrita. Uso a IA para outras coisas que não escrever, embora siga problematizando seus desdobramentos. Escrevi um texto mais profundo (um pouco antigo, embora ainda atual) sobre aqui.



Amei a reflexão, principalmente essa parte que vai para o meu segundo cérebro "O processo importa mais que o resultado. A gostosura importa mais que a produtividade. Quem cria o faz primeiro para si, depois para o mundo."