O CEP+R como você nunca viu (parte 1)
Descobrir o mundo se faz caminhando e o CEP+R é uma forma de olhar para essa caminhada
📢 ATENÇÃO: este post é um trecho do meu próximo livro, A2C: Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (título provisório).
Estou escrevendo esse livro “a céu aberto” e você pode me acompanhar nessa aventura: é só apoiar a partir de R$ 15 reais. Saiba mais aqui.
Ao enviar ou receber encomendas utilizamos uma astuta invenção dos anos 70 feita pelos correios, o CEP. Pouco pensamos sobre esse dispositivo geográfico: apenas fazemos uso corriqueiro dele e, quando mudamos de casa, leva algum tempo até memorizarmos aquele novo número que nos reposiciona no mundo – e algumas pessoas como eu nunca o memorizam. Só nos lembramos da existência do CEP em situações de envio e recebimento de objetos; para nos locomover somente o endereço já é suficiente. Foi com a intenção de facilitar o intercâmbio de objetos físicos que os correios criaram essas prosaicas combinações numéricas que nada tem de aleatórias e que cartografam ruas, casas, comércios e indústrias.
O aprendizado como busca ou investigação também envolve operações de mapeamento e cartografia. Nós precisamos ir a algum lugar para contemplar, compreender e criar – imóveis aprendemos muito pouco. A procura por objetos de aprendizagem, isto é, tudo aquilo que existe e com o qual podemos instaurar relações que nos amplificam, pode ser codificada a partir de um outro CEP, o CEP+R: Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes. Com essas quatro categorias é possível aprender qualquer coisa, ir a qualquer lugar, enviar e receber objetos sensíveis portando um código de rastreio. Descobrir o mundo se faz caminhando e o CEP+R é uma forma de olhar para essa caminhada. Os objetos ou as fontes com as quais podemos aprender, quer sejam encontradas ou criadas, são inúmeras: viver é um manancial de oportunidades de aprendizagem.
CEP+R é um conceito que criei junto com meu amigo Conrado Schlochauer. A história de quando nos conhecemos é ela mesma um exemplo de uma das fontes do CEP+R, o P de Pessoas. O Conrado fez um doutorado (acadêmico) em aprendizagem autodirigida e informal enquanto eu estava há alguns anos pesquisando esse tema a partir do meu doutorado informal. Não nos conhecíamos até que um amigo em comum escreveu uma mensagem nos apresentando no Facebook. “Deveriam se conhecer, vai dar match”, ele disse. Mal sabia eu sobre a magnitude da carreira em aprendizagem corporativa do Conrado, de sua sapiência humorística e menos ainda sobre os bonitos caminhos que se abririam pra nós. Pouco tempo depois marcamos um almoço e começamos a confabular em torno dos nossos interesses compartilhados. Não demorou até o caldeirão de ideias esquentar: novos projetos e conceitos embebidos em infinitas conversas de Whatsapp pipocaram dessa amizade criativa.
Quando alguém entra em nossas vidas a gente nunca sabe onde vai dar. Eu nunca imaginaria viver e aprender tantas coisas com o Conrado. E isso não ocorre apenas com o P de Pessoas. Qualquer Conteúdo, Experiência ou Rede também pode mudar pra sempre o rumo das coisas. Fontes de aprendizado são barcos, nos fazem velejar. Assim como o CEP dos correios possibilita mapear e localizar endereços, o CEP+R possibilita uma cartografia de saberes; em vez de uma movimentação de objetos físicos, o que o CEP+R propõe é um trânsito ontológico-epistêmico capaz de sacudir mundos.
Conteúdos
Conteúdos podem ser acessados por meio de livros, blogs, artigos, revistas, jornais, vídeos, podcasts, redes sociais, páginas na internet, motores de busca como o Google e, mais recentemente, modelos de inteligência artificial. É o caminho mais enfatizado pelos anos e anos que passamos na educação tradicional, a tal ponto que aprender, aos olhos de muita gente, virou sinônimo de “consumir conteúdo” (pois é, até isso virou consumo). A visão de mundo escolarizada ainda insiste na equação absorver muito conteúdo + fazer prova = aprendizado, como se isso correspondesse em alguma medida com o mundo real. Nessa brincadeira muitas pessoas ao longo da vida acabam tendo dificuldade em intencionar movimentos de descoberta por meio de outras fontes (Experiências, Pessoas e Redes), como uma planta que tomba no chão pois apenas um de seus galhos cresceu. O aprendizado tornou-se refém de um monopólio conteudista.
A era digital transformou nossa relação com os conteúdos. Se antes essas fontes viviam confinadas em papel e eram acessíveis a poucas pessoas, agora o desafio é sair ileso do bombardeio de conteúdos pasteurizados, boa parte com fins comerciais, que nos tomam de assalto nas telas. Filtrar o excesso – em vez de driblar a escassez – passou a ser a tarefa de quem deseja aprender pela via do conteúdo. O tipo de informação que a cultura digital nos induz a priorizar, de baixa qualidade e confiabilidade e com conteúdos rápidos, superficiais e focados em entreter, junto a um perverso processo mercadológico que propositalmente fragmenta nossas capacidades de atenção e concentração, tudo isso aponta para o apodrecimento do único caule crescido da planta, o messias do conhecimento escolar: o aprendizado pelos conteúdos.
Muito se pode dizer sobre a necessidade de redobrar habilidades de senso crítico, curadoria e construção de sentido (sensemaking) em um mundo cognitivamente fraturado. Isso poderia começar com uma frase comum nas discussões sobre tecnologia, mas ainda não assimilada: “se nada é vendido, você é o produto”. Os meios da educação tradicional pouco ajudam nesse processo reflexivo, pois reproduzem a mesma colonização da atenção e o mesmo cerceamento de olhar que as big techs geram – o que muda é a forma, mais tirânica ou mais sedutora. Embora não seja meu objetivo aqui oferecer caminhos para o fortalecimento dessas habilidades, quero compartilhar uma aposta que pra mim é um bote salva-vidas no apocalipse informacional: ler livros.
Não sou pai, mas algo que me preocupa na interação entre pessoas adultas e crianças são nossas influências sobre esses pequenos seres. Os sinais – especialmente os mais sutis – que emitimos para elas a partir do que fazemos e como fazemos. Sobre o uso do celular: se habito muito tempo essa micropaisagem virtual e uma criança vê isso acontecendo todo dia, estou contribuindo tacitamente para que ela faça o mesmo. O contexto é música e a criança – as pessoas de forma geral – tendem a dançar conforme a música. O ambiente, do qual sou parte na perspectiva da criança, exerce uma força psíquica não desprezível no seu estar-no-mundo, assim como o pH da água condiciona a vida do peixe. O mesmo ocorre com ler livros: se leio com frequência, irradio um poderoso sinal de que faz sentido se dedicar à leitura. Podemos ser então como ímãs, alardeando socialmente o gozo e o benefício da atenção focada exigida pelos livros em vez da adição venérea das mídias sociais.
É claro que esse não é o único motivo para retornar aos livros – em especial os físicos – em plena era digital. Se muitas pessoas se perdem na tóxica hipertrofia de seus próprios pensamentos, a capacidade de mergulho no pensamento do outro está atrofiada. As chupetas informacionais1 da era digital inviabilizam a experiência imersiva e demandante de se ler um livro – e com isso ser transportade para um universo além do próprio umbigo por mais de quinze segundos. O hábito de ver nos livros companhias existenciais e levá-los na mochila por onde for é o que nos devolverá o raciocínio crítico e imagético que nos foi roubado. Ficção, não ficção, poesia, filosofia, não importa; o importante é seguir lendo. Livros físicos, com todo seu charme anacrônico, parecem ser uma das poucas coisas que restaram fora das telas: uma rara solitude offline. Viver o livro não é só ler seu conteúdo, é também folheá-lo, cheirá-lo, anotá-lo, declamá-lo.
Se os livros são a possibilidade de mergulhar em pensamentos fora da sua bolha com o escasso sabor da fisicalidade, uma outra rota é imaginar o que podemos fazer nas telas para quebrar suas máquinas caça-níqueis atencionais. Filmes não hollywoodianos, será que alguém ainda tem coragem de investir preciosas duas horas para assisti-los? Ler textos acadêmicos – artigos, dissertações, teses – por puro prazer intelectual mesmo sem estar na universidade? Acompanhar newsletters e assim construir uma relação de proximidade com quem as escreve para além dos clickbaits? O mundo digital é um lugar inóspito, mas ainda é possível ficar mais inteligente nele. Até as inteligências artificiais – e eu digo “até” pois são elas as responsáveis pelo fato de metade da internet estar morta – podem ser usadas de maneiras interessantes para buscar, gerar e digerir conteúdos. Criar podcasts a partir de um livro, fazer perguntas a um vídeo, propiciar conversas entre fontes distintas, testar seus conhecimentos: o leque aumenta cada dia mais. Ao permitir diálogos com conteúdos a IA os transforma em pessoas.
Experiências
Fazer alguma coisa em vez de só ler, assistir vídeos ou conversar: aí está o E de Experiências. Eu e Conrado gostamos de pensar a mais cinética das letras do CEP+R por meio de um exemplo esdrúxulo: cozinhar risoto. Vamos supor que você nunca fez risoto e deseja aprender. É claro que você pode pegar algumas receitas e entender sobre os ingredientes e modos de preparo – ou jogar no ChatGPT e colher a maneira exata de fazer o tipo de risoto que você quer (Conteúdos). Um outro caminho, particularmente útil antes de uma experiência, é pedir para alguém te mostrar os segredos de um bom risoto ou até permanecer do seu lado na hora de cozinhar (Pessoas). Hipoteticamente você até poderia ingressar na ANR – Aliança Nacional dos Risoteiros – e frequentar fóruns e eventos para descobrir uma pluralidade de maneiras de cozinhar risotos (Redes). Tudo isso é ótimo, mas não há como fugir de uma dura verdade no aprendizado: para aprender é preciso botar – além de reparo – a mão na massa, e são as experiências que tornam isso possível.
Há um frescor ao se lançar na aventura da experiência. Também pode haver medo. É ela que permite testar nossos conhecimentos e habilidades no mundo real, e é por isso que as escolas seriam lugares melhores se as crianças pudessem viver experiências – podendo escolher quais, é claro – em vez de fazer provas. Toda experiência é sempre um experimento: ao agir, experimentamos o que acontece dentro e fora de nossas peles e assim ganhamos acesso ao que Conteúdos, Pessoas e Redes jamais conseguirão nos dar – uma sabedoria encarnada. Não importa o que já lemos ou com quem conversamos; a experiência direta vai nos surpreender. Se na prática a teoria é outra, o E de Experiências nos ajuda a reelaborar continuamente nossas teorias de mundo. Se o mapa não é o território, são as visitas a territórios novos e antigos que nos permitem redesenhar os mapas.
Aulas, cursos e treinamentos, ecos da caverna da educação tradicional, também são experiências. Vivenciá-los pode ser maravilhoso se a pessoa consentir ativamente com a maneira de se conduzi-los ou se ela tiver voz sobre o que e como aquilo acontecerá. É gostoso viajar no banco do carona de vez em quando e poder olhar a paisagem pela janela. Ainda assim três problemas podem acometer as pessoas nesse contexto: o primeiro é elas se acostumarem a seguir o trilho e nunca abrirem trilhas, numa relação de dependência contínua com quem as conduz; o segundo é se transformarem em repetidoras de receitas em vez de criadoras; e o terceiro é não mastigar o que comem, evitando projetar suas próprias experiências de aprendizado por acreditarem que o ambiente artificialmente controlado do curso já é o suficiente.
Criar suas próprias experiências de aprendizado não é trivial. Por algum motivo – sim, escolarização – achamos normal buscar pilhas de conteúdos teóricos para aprender, mas as experiências são uma fronteira bem menos explorada. Tratamos as experiências como algo que, se tivermos sorte, atravessará nosso caminho. Somos mais suas vítimas do que suas produtoras. Assim é que normalizamos a espera, deixando as oportunidades de experienciar diretamente o que estamos aprendendo caírem do céu. Todo mundo pode ser artífice de seus próprios experimentos para contemplar, compreender e recriar mundos dentro e fora de si. Até mesmo o estudo de temas muito abstratos pode desaguar em experiências concretas: uma investigação sobre estoicismo pode gerar experimentos sobre novas posturas de vida; em antropologia é possível arquitetar vivências com pessoas na rua ou em comunidades específicas; e ao aprender semiótica você pode projetar testes para entender como um signo é interpretado por diferentes públicos. Não importa o que seja, criar experiências para corporificar o aprendizado é sempre uma possibilidade, basta botar a cachola pra funcionar com as perguntas: como praticar isso? Como vivenciar isso? De que formas posso construir experimentos? O que posso fazer para abrir os poros e sair dos buracos de minhoca da minha cabeça? E, claro, aproveitar as oportunidades que a vida já te oferece para transformar teoria em prática, pensamento em ação, mapa em território.
Colada na experiência está a reflexão, sua outra face. A correria cotidiana – ou melhor, a escassez de tempo produzida pelo sistema – inviabiliza a reflexão e, muitas vezes, também a experiência. Refletir na prática significa pensar, sentir, escrever, conversar com outras pessoas, desenhar, sair para caminhar e até buscar conteúdos que ajudem a integrar e extrair sentido do que se viveu. Existem vários jeitos de se construir uma reflexão, mas nem todos envolvem racionalidade. Alguns são intuitivos e acontecem enquanto se avista uma borboleta ou lavando louça.
Gostou? Você pode ser parte do nascimento desse livro a partir de R$ 15.
Me ajude a derrotar minha acrasia apoiando o financiamento coletivo do livro da Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (A2C).
Agradeço ao Conrado Schlochauer por essa metáfora.



Te leio há algum tempo, mas o texto CEP+R me fez sair da inércia e colaborar com o seu bem-estar na lida com o cárcere privado. Texto transformador, compartilhei com meus filhos (já pais) e com meus amigos mais queridos — felizmente, tenho o privilégio de tê-los em número maior que os dedos das mãos. Inicialmente, até comecei a grifar o que mais me tocou, mas ficaria muito amarelo. Parabéns pela coragem de conduzir este trabalho.
Amando acompanhar a escrita!