Árvores, banhos e cafunés: a teoria de aprendizagem que sustenta A2C
Os conceitos que baseiam a Aprendizagem Autodirigida em Comunidade
📢 ATENÇÃO: este post é um trecho do meu próximo livro, A2C: Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (título provisório).
Estou escrevendo esse livro “a céu aberto” e você pode me acompanhar nessa aventura: é só apoiar a partir de R$ 15 reais. Saiba mais aqui.
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” – é por meio de um esperançar insistente que A2C se firma no mundo como uma proposta de reflorestamento dos espaços sociais e educacionais. Não será um processo rápido e sei que talvez eu nem veja a magnitude do resultado nesta vida. Ainda assim te convido a abraçar o pioneirismo em torno da ideia de “descobrir junto” para reencantar os corações. É como fazer cafuné: você pode até se sentir bem tocando suavemente seu próprio cabelo, mas para experimentar a verdadeira arte do cafuné é preciso algo além de você: o outro. E não é qualquer pessoa senão um outro disponível, aberto, atento a descobrir junto com você as maneiras de encostar no seu cabelo que te fazem vibrar. Em um espaço de A2C ocorre exatamente isso: as pessoas vão descobrindo as maneiras de encostar nos mundos umas das outras para vibrarem juntas – um cafuné coletivo de novas perspectivas, afetos e caminhos.
Cafunés são carinhos que abrem o cérebro através do coração. Como é alguém fazer carinho nas suas ideias, nas suas perguntas, nas suas vontades de aprender? Como é regá-las coletivamente? A2C é também um jardim onde todes são responsáveis por regar os movimentos de aprendizado de todes. Meu intuito é botar fermento nesses jardins. Se o jogo da ensinagem tradicional é reproduzir fôrmas, nós precisamos reinaugurar então as formas (sem acento) de aprender descobrindo – ou melhor, inventando – novas realidades. Saber qual jogo estamos jogando e qual queremos jogar na vida é fundamental, pois nossas realidades comuns são construídas a partir de jogos – ficções – sociais. As pessoas acreditam tanto nos jogos que jogam a ponto de não cogitarem outras configurações de mundo, e é por isso que certos jogos são tão pervasivos.
O pervasivo jogo da educação tradicional, tão bem representado pela instituição escolar, pode ser vinculado a imagens como a régua, o molde, a subida solitária e exaustiva à montanha, a corda bamba, a gaiola, escrita à caneta, guerra. O jogo que A2C propõe lembra mais um cafuné, uma dança, um jardim, uma floresta, um micélio, um rio, escrita à lápis, banquete. Percebe o abismo?
Não se trata de criar mais uma ideia que se pretenda universal. Por isso A2C trabalha com a noção de puxadinhos, uma forma de construção tipicamente brasileira que amplia o que já existe ao invés de destruir e refazer do zero. Antes de forçar a universalização do entendimento a respeito do aprendizado pela descoberta coletiva, o que A2C oferece é uma via alternativa constituída em arquipélagos em vez de um novo continente. O ensino enfadonho e impositivo continuará sendo o principal jogo a ser jogado por quem deseja ou se vê na obrigação de “aprender”. A lógica da ensinagem seguirá sendo o grande continente do sistema educacional, pois há persistentes forças estruturais e institucionais que a evocam. Mas isso não significa que nós não possamos semear outras ecologias, outras lógicas, outros jogos – pelo contrário.
Reformular o crônico e desatado desencanto do mundo pressupõe repensar não só o “como”, as maneiras de aprender, resgatando o sabor da descoberta em contraponto ao colonial monopólio do ensino, mas sobretudo reimaginar a própria noção de aprendizado. Quero propor essa reflexão por meio de uma história onírica, algo que aconteceu quando escutei o que o céu me falou.
A palavra que caiu do céu
O céu se enganchou comigo num abraço vulcânico, daqueles que querem te dizer coisas jamais ditas. Eu o observava através de uma espessa moldura de árvores, e ali, naquele instante, naquela noite incandescente, ele se comunicou comigo – tenho pra mim que o céu se comunica com a gente o tempo todo, mas somente quando os olhos assumem forma e jeito de estrela é que conseguimos responder à altura.
Meu coração estava aceso por intermédio de uma fogueira. O cheiro da queima brotava narizes na minha pele. Eu enxergava tudo ao redor, tudo, ainda que meu olhar estivesse flechando copiosamente o céu e mais nada. Pessoas dançavam e cantavam, mas a minha pessoa estava interessada mesmo era no banho escuro que lá de cima se derramava. Eu senti uma palavra sendo derramada: “Respeito” – com letra maiúscula mesmo, pois gastamos letras maiúsculas com coisas de muito menor importância.
“Respeito”, o céu cochichava: não fique tentando compreender tudo. Respeite, Alex, aquilo que está além de qualquer entendimento. Contemple, reverencie, faça de sua vida uma homenagem a todas as coisas que existem e ainda não foram decifradas. Não pense nunca que algo já foi decifrado. Tenha uma humildade ontológica. Não se acanhe por não entender: sorria e a vida vai lhe sorrir de volta. Assimile, respire o ar da existência e não o prenda em seus pulmões.
Uma sensação forte e azulada, escura como a noite e quente como o sol, tomou conta de mim. A serenidade se apoderou do meu corpo. A paz me convidou para dançar sem que eu precisasse mover um dedo. Eu que sempre tentei saber de tudo, descobrir tudo, fui parar no hospício da vida: o lugar em que assumimos, lá nos recônditos do humano, a maluquice que é viver. O céu me transportou e não cobrou um centavo. Aprendi a respeitar como quem aprende a comer. A existência vale mais assim: inaudita, acachapante, livre – o tanto quanto possível – dos nossos esquemas ordinários de percepção.
Tocava “Porcelain” do Moby ao fundo. Ouvi essa música como uma criança que descobre uma folha que se movimenta com o toque. O céu nunca mais foi o mesmo. Também nunca mais foram os mesmos as areias, águas, flores, peles, cores, palavras. Tudo se movimentou, assim como a dormideira quando acorda. Há de se fazer deslocação de céu para mudar por dentro; as estrelas podem falar tanto quanto uma tese de doutorado.
Contemplar e reverenciar sem precisar entender é uma arte da vida. Passa por aceitar nossa pequeneza diante das coisas. Por isso gosto da poesia do Manoel de Barros, que fala das pequenices do chão e do quintal, daquilo que acontece não quando ninguém está olhando, mas sim – e somente – sob um olhar atento para os esconderijos de encantamento da vida comum. É possível olhar para a vida-de-todo-santo-dia e encontrar tesouros? É viável fazer reverência – se curvar mesmo – diante da vitalidade de um gotejo de água, de uma nota musical, de uma palavra gostosa ou de um leve carinho nas costas?
Essa arte leva tempo. As pessoas pensam que aprender a fazer algo leva tempo ou que dominar uma habilidade leva tempo, mas aprender a ver – a se comover – leva mais tempo ainda. Foi o céu que me ensinou a ver pela primeira vez as coisas que eu já vi um milhão de vezes. Para isso nós temos as melhores professoras: as crianças. Na verdade qualquer coisa e qualquer pessoa pode nos educar nesse sentido. É uma operação que se dá no tipo de relação que se tece com o meio, e não se engane, você está no meio do meio, você é Um com ele.
É claro que conhecer ajuda. Não sou inimigo do conhecimento. Os saberes que produzimos sobre as coisas podem nos abrir ou nos fechar, podem ser chave ou fechadura – cuidemos para não nos enclausurar. Saberes são repertórios, cores, e eu não sei você, mas eu desejo uma vida bem colorida. Não quero apenas o saber racional; quero também as poesias, filosofias, artes, loucuras, as culturas populares, os fazeres manuais, as genialidades ocultas, o ouro submerso. Um conhecimento colorido intensifica a arte de contemplar; um conhecimento cinzento a apaga.
É por isso que se expor ao diferente agrega – sua paleta epistêmica cresce. Aí você é capaz de descobrir o que não sabia que estava procurando, sentir o que não sabia ser possível sentir, enxergar o invisível. É uma questão de sintonia, de se lançar em viagens um pouco incertas e se ligar pro que vem. Não precisa nem viajar de fato, dá pra permanecer no mesmo lugar e apenas olhar de novo. Respeito aliás é isso: olhar outra vez.
Um olhar que se permite encher é como se banhar, e na vida a gente pode se banhar de muita coisa além de água. Você se banha de uma fala que arrepia até o dedão do pé, se banha de um livro que te obriga a expandir seu mundo, se banha de entusiasmo ao entrar numa nova aventura, se banha do amor que floresce nas encruzilhadas, se banha do olhar afetuoso dos seres ao serem notados… Podemos nos banhar de muitos jeitos diferentes e isso enriquece a vida.
A metáfora é boa porque se banhar de fato transborda prazer. É de uma gostosura descomunal tomar um banho, abrir os poros, se entregar para uma disposição corporal aquática e sentir como isso mexe com a alma, as emoções e o intelecto. O ato de contemplar – de fazer reverência à vida e às coisas da vida –, o ato de respeitar absolutamente tudo, a postura genuína do conhecer, o pensar certo de Paulo Freire, tudo isso é se banhar, sabe? Não é pouco regar a vida com muitos banhos.
A ação de produzir uma descoberta a partir de nossas estruturas psíquicas passa a ser então um se molhar. Não dá pra descobrir as coisas realmente interessantes sem se molhar. Toda investigação de vida que vale a pena é também corpórea, emocional e tesuda – como elaborou Roberto Freire – antes de ser mental. As pessoas, com medo desse tesão todo, se fixam em suas visões caquéticas, se demoram em moradas que já deram o que tinham que dar e isso gera secura, aridez. O céu vai se desertificando e a gente nem percebe. Quando vê talvez já seja tarde demais, mas eu acredito que, se você está lendo isso, ainda é tempo, sempre é.
O mundo é vasto e o céu mais ainda, mas apenas um olhar com respeito consegue ver. Um olhar de quem descria o mundo, de quem desorganiza para organizar e organiza para desorganizar, de quem transvê. Eu não sinto que realmente aprendi isso, mas me ensinaram que o caminho é o que importa. Ter chegado no hospício da vida me preparou para seguir despreparado, desacostumado, desarmado e é assim que eu sigo pelos becos e avenidas da existência, desaprendendo a cada oportunidade.
3 Cs: Contemplar, Compreender e Criar
O que A2C quer é reposicionar a aprendizagem como força de vida que permite o gozo existencial. É entender como tornar o mundo mais maravilhoso a cada encontro nosso com ele. É retirar o aprendizado de uma instância apenas técnica e performativa para transformá-lo no que ele realmente é: uma ferramenta de reencantamento. Aprender a contemplar, reverenciar e respeitar o que se experiencia, como vimos, são caminhos férteis nesse sentido. Mas há outras miradas.
Os 3 Cs – Contemplar, Compreender e Criar – são uma teoria para explicar os diferentes movimentos que a aprendizagem nos convida a viver uma vez que a compreendemos com olhar mais aguçado. Todo espaço erguido por A2C é um trampolim que intensifica o mergulho nessas três artes da vida: um se molhar coletivo. É por meio dos 3 Cs que a pessoa inscreve sua singularidade no cosmos e é também por meio deles que a pessoa recepciona e adere a toda e qualquer singularidade cósmica. E é a aprendizagem o corpo conceitual – ou melhor, o movimento – que agrega e unifica essas três trocas que fazemos, ora com mais intencionalidade, ora com mais espontaneidade, com o universo inteiro.
Contemplar
Quando contemplo, aprecio, admiro, não estou preocupado em compreender ou intervir. Tudo que quero é apenas continuar respeitando o misterioso frescor do fenômeno à frente – me deslumbrando, me deixando afetar ora gentilmente, ora intensamente, ora alegremente, ora tristemente – para que todas as minhas células transbordem e todos os meus poros se abram. Você já sentiu isso alguma vez? É um sentir o contemplar: em sua máxima potência é um arrebatamento corpóreo-psíquico no entrelace do objeto contemplado e do sujeito que contempla. Em algum momento o entrelace desemboca numa inversão, de modo que até o objeto mais ordinário vira sujeito, até a coisa mais morta ganha vida, ao passo que até o sujeito mais turrão vira objeto e até a vida mais luminosa se cala para melhor apreciar.
Alguns objetos são criados pela humanidade com a função primordial de serem contemplados. É o caso por exemplo daquilo que chamamos de arte. Ainda assim tudo que existe – o cosmos, os átomos e as ideias – é passível de ser contemplado, pois a contemplação não está em nenhum lugar senão no jeito de olhar e ser olhado pelas coisas.
A sensação de admirar profundo pode nos levar ao maravilhamento, uma emoção específica e transcultural capaz de conferir sentido à vida e conectar corações. Monica Parker, estudiosa do tema, afirma o seguinte:
Como uma espécie de DNA emocional, o maravilhamento percorre nossa experiência humana compartilhada, imprimindo-se em nossas vidas. Da expressão artística à fé religiosa; do som da música numa sala de concerto escura ao timbre carismático de um grande líder; desde o nascer do sol sobre os Grand Tetons até uma tempestade vista pela janela do avião; desde o nascimento de uma criança ou de uma nova ideia até o fim de uma vida ou de um pesadelo febril, o maravilhamento existe universalmente. Seja se esgueirando pelos cantos da nossa mente ou anunciando de maneira bombástica sua chegada em nossas psiques trêmulas, o maravilhamento muda nossa perspectiva, nossos corpos, nossas almas e nossas vidas. Arte, música, religião, política, ciência, natureza, amor, medo, nascimento, morte; cada uma das inúmeras experiências que se comprimem para formar a base da vida humana tem uma veia dourada de maravilhamento correndo por ela. Esse elemento tão primordial e primário da nossa consciência coletiva é ancestral e bem documentado, mas só recentemente foi definido e investigado seriamente pela comunidade científica1.
Por vários motivos difíceis de mudar, desde a epidemia de ansiedade – um ensimesmamento psíquico – até a pressão por estarmos sempre produzindo e fazendo algo – como elaborou Byung-Chul Han em seu A Sociedade do Cansaço –, nossa musculatura de contemplação está atrofiada. Assim como os outros dois Cs, Compreender e Criar, Contemplar requer aprender a contemplar. Existe uma diferença entre pessoas apreciadoras de café e quem mal sabe distinguir um café com grãos mais selecionados: essa diferença é a curva de aprendizagem da contemplação. Isso ocorre com tudo. Observar granularmente as belezas e se entregar a elas é uma prática, um treino. Há quem olhe para uma árvore e nunca a veja. Com o tempo, é possível aprender a enxergar alguma beleza em tudo – se não estética, ao menos existencial; se não na seriedade, ao menos no cômico; se não na superfície, ao menos no subterrâneo das coisas.
Compreender
Quando busco compreender – no sentido de investigar, entender – a realidade, meu desejo é desvendar os fenômenos. Como funcionam? De que são feitos? De onde vieram e para onde vão? Como é possível influenciá-los – ou até controlá-los? Como me afetam? Por que importam? A ação primordial do Compreender é a construção de perguntas, hipóteses e teorias. A premissa básica é: sempre há mais saberes escondidos por trás de cada resposta que obtemos. Para ilustrar esse ponto, Yaacov Hecht utiliza uma analogia poderosa. Como você costuma desenhar uma árvore? A maioria de nós tende a desenhar uma árvore a partir da clássica tríade “tronco, galho e folhas”. No entanto, isso representa apenas a parte visível da árvore. As raízes raramente aparecem com destaque em nossos desenhos. Com apenas tronco, galhos e folhas, o que temos é uma meia árvore ou uma árvore morta.
Uma árvore viva deve ser desenhada com as raízes ocupando um espaço no mínimo tão vasto quanto seus outros componentes. Yaacov usa essa imagem como metáfora para dizer sobre a conexão umbilical entre o conhecimento, representado pela parte visível da árvore e o desconhecimento, simbolizado pelas raízes, as quais com frequência não somos capazes de ver. Um conhecimento de mundo – as respostas que somos capazes de elaborar – desconectado do nosso desconhecimento sobre ele – isto é, o mistério, a curiosidade, as perguntas – é um conhecimento morto, estéril, assim como a árvore que teimamos em desenhar.
A partir dessa metáfora emerge um paradoxo: se a parte visível da árvore cresce no mesmo ritmo de suas raízes, então nosso conhecimento cresce na mesma medida do nosso desconhecimento. Quanto mais sabemos, mais sofisticadas passam a ser nossas perguntas e investigações. Quanto mais avançamos, mais temos a avançar. A maior inimiga da verdade não é a mentira, é a certeza. Certezas são feridas botânicas; uma vez instaladas, interrompem o fluxo entre as raízes e o corpo aéreo da planta. É por isso que toda verdade absoluta é um câncer epistêmico. A trajetória humana em busca do conhecimento não pode nunca se esquecer de suas raízes. O não saber é um espaço a ser habitado de maneira volumosa, não importa o quão certo ou contundente nos pareça determinado saber. A arrogância estanca o aprendizado e pior, apequena a alma.
Compreender, dos 3 Cs, é o verbo que mais se aproxima do aprendizado no senso comum. E é compreensível (perdoe o trocadilho ruim), considerando a miopia racionalista e a prevalência da lógica explicativa na educação. Mas aprender é muito mais que compreender, ou a própria ideia de compreensão pode ser expandida, como se vê nesta elaboração de Hannah Arendt:
A compreensão é a maneira especificamente humana de estar vivo, porque toda pessoa necessita reconciliar-se com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. A compreensão é um processo que começa com nosso nascimento e termina com nossa morte. […] A compreensão é uma atividade interminável, por meio da qual, em constante mudança e variação, aprendemos a lidar com a nossa realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em casa no mundo2.
Compreender é se enraizar cada vez mais para poder ascender ao sol. Pouco tem a ver com memorizar ou repetir e também não deriva somente de uma atividade racional. A compreensão real é uma sensação de conectar os pontos, um a-há, uma explosão intelectual. Dos novos frutos de conhecimento saem as sementes que alimentarão novas procuras: um processo cíclico e espiralar como a vida.
Criar
Quando eu crio ou intervenho na realidade, inscrevo minha marca no mundo, seja pela via material – objetos e ações no mundo físico – ou imaterial – ideias, visões, conceitos. Criar envolve o fazer, mas vai além. É autoralidade, legado, explicitação da própria singularidade. Criar é uma contribuição planetária do ser que mesmo sem ninguém pedir pode se manifestar, pois o próprio modo de operar da vida é criativo. Em essência, todos os 3 Cs são atos de criação. Nós não estamos no mundo, nós criamos o (nosso) mundo por meio das infinitas relações e dos modos de se relacionar com tudo que nos cerca. Um pouco como as aranhas que vivem e caminham nas próprias teias que produzem. Como calibragens específicas da percepção é que Contemplar e Compreender também são atos criadores: perceber também é criar. É por isso que A2C, tendo por base a noção de aprendizagem desenhada a partir dos 3 Cs, não pode deixar de ser uma aprendizagem criativa.
Ainda assim, algo único no Criar é a relação entre o ser que cria e sua obra. Fazer coisas melhores e testemunhar como isso reverbera no mundo – eis um potente impulso que temos. Não precisa ser nada grandioso. Pode ser inventar uma brincadeira que sua filha adora, testar um método para organizar as finanças, treinar um novo ponto de costura ou correr cinco quilômetros pela primeira vez. Criar não é uma atividade restrita a artistas: todo ser vivo cria. Todo ser é um artista da vida. E a relação entre artista e obra, como sabemos, pode ser tumultuada. O escultor suíço Alberto Giacometti elaborou uma visão interessante a respeito do tema:
Para mim estava sendo cada vez mais difícil completar minhas obras. [...] Eu olho para as minhas estátuas. Todas elas, até as que parecem estar completas, são um fragmento, cada uma é um fracasso. Sim, um fracasso! Entretanto, em cada uma delas, existe algo daquilo pelo que estou me esforçando; algo disso existe em uma, e algo mais em outra, e até numa terceira, mas nessa há algo que falta nas outras duas. Mas a estátua que tenho em mente contém tudo, e nisso ela ofusca tudo que aparece nas outras estátuas. Isso é o que motiva o desejo poderoso de continuar trabalhando3.
Além da fascinante relação entre artista e obra instituída pelo Criar, uma outra distinção possível é a tendência em destinar nossas criações para o outro, enquanto Contemplar e Compreender são movimentos mais internos. A cozinha é um lugar onde isso se verifica facilmente: gostamos de fazer comida para outras pessoas mais do que para nós. Sentimos prazer quando desaguamos criações em outros seres e suas águas se purificam em contato com a nossa. É em função disso que Criar é um caminho importante de validação social, de modo que quem é incapaz de obter esse reconhecimento pode estar com a psique em risco. Não é preciso muito: na verdade até pequenas idiossincrasias – nossos jeitos específicos de falar, caminhar, brincar, viver – são criações passíveis de impactar o outro e a partir das quais podemos vir a ser alguém para alguém.
A filosofia do botar reparo
A aprendizagem que anima A2C é feita dessas três musculaturas psíquicas: contemplação, compreensão e criação. Uma artesania de saberes é provocada através dessas formas de olhar, e é assim que conquistamos nosso lugar de artífices da vida. Os saberes não estão escondidos em algum baú cósmico esperando serem encontrados: é por meio das trocas com o mundo que os compomos. “O futuro não é um lugar para onde estamos indo, e sim um lugar que estamos criando”4. O passado não é de onde viemos: é também espaço de elaboração contínua no presente. Um deslocamento de mundo é produzido por cada movimento a partir dos 3 Cs, e cada deslocamento de mundo é simultaneamente um descolamento de si em direção ao outro, ao afora.
Não precisa fazer nada além do que você já faz. Assistindo a um filme, conversando com alguém, tentando resolver um problema, olhando para o céu estrelado, tomando uma água de coco, escrevendo, viajando… Como é que suas células pulam? O que acontece com a unha do seu dedão do pé? Contemplar, Compreender e Criar são forças que já estão aí. Elas já são parte do seu ser. Ao mesmo tempo que tudo isso é de fato instintivo – até mesmo o “contemplar”, pois já se provou que macacos também param para admirar a paisagem em suas andanças5 –, essas musculaturas da percepção ficam mais fortes se botarmos intencionalidade nelas. A força de um conceito é precisamente sua capacidade de nos fazer intencionar diferente.
Botar reparo é um desses conceitos que nos convidam a reemoldurar a vida. Primeiro pela sua maravilhosidade palavrística: “botar” é um verbo gostoso e, junto com “reparo”, fica quase que uma coisa só: “botáreparo”. “Cê já botou reparo nisso?” Bem mineiro, né? Mas botar reparo não é só uma coisa boa de se falar: é também uma nova avenida epistemológica, um princípio de vida com o qual podemos rever, transver o mundo. Botando reparo nas coisas é que aprendemos a ver com atenção – e nisso surgem coisas que ainda não vimos. É possível botar reparo inclusive em como se repara. “Botar reparo nos jeitos de olhar importa mais que o visto”. Respeito é isso: olhar com curiosidade para nossas maneiras de ver-elaborar-sentir o mundo.
A filosofia do botar reparo envolve um cuidado com o perceber. Vemos um monte de coisas o tempo todo, todos os dias. Fazemos tantas coisas todos os dias. Pensamos, nos relacionamos, nossa pele se entremeia com a pele do mundo todos os dias. Mas em quais dessas interações a gente realmente bota reparo?
Botar reparo é o passo decisivo para aprender a Contemplar, Compreender e Criar, isto é, para não cair no piloto automático da vida. A aprendizagem fica aperreada sem esse movimento. A aventura de existir botando reparo no que e como podemos aprender é o que nos abre para desfrutar e contribuir com os infinitos mundos que nos rodeiam.
Gostou? Você pode ser parte do nascimento desse livro a partir de R$ 15.
Me ajude a derrotar minha acrasia apoiando o financiamento coletivo do livro da Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (A2C).
Traduzido por mim do original contido no livro The Power of Wonder.
Encontrei esse trecho no site da Ida Mara Freire: https://idamarafreire.com.br/sobre.
Conforme citado pelo Yaacov Hecht em seu livro Educação Democrática.
Uma frase de Antoine de Saint-Exupéry.
Como se vê no livro Why We Believe, de Agustín Fuentes.



